Pluralismo Religioso valida o ateísmo?

::: Via Quebrando o Encanto do Neo-ateísmo :::

Budismo? Islamismo? Cristianismo? Seria a simples existência de um “cardápio” de opções no tocante à religião uma prova definitiva de que Deus não existe?

Por incrível que pareça, essa posição é defendida por algumas pessoas na internet. A alegação se baseia que, diante de um fenômeno multicultural, o correto, apenas analisando esse fato, seria concluir que todos estão errados e que a existência de Deus fica provada como falsa. Exemplo abaixo:

  • NEO-ATEU: Você não percebe que cada região em cada lugar diferente possui um deus e uma religião diferente? Não é mais lógico e racional*, ao ver essas diferenças, simplesmente aceitar que todas essas religiões são falsas e que Deus não existe? (*não se impressione se ele ficar tentando dizer que é mais lógico e racional. Essa é uma estratégia de self-selling, possivelmente estimulado por gurus ao estilo Richard Dawkins, e só tem valor de apelo emocional)

Esse discurso não sobrevive ao crivo lógico.

Primeiro lugar: mesmo que todas as religiões sejam inválidas, não segue logicamente que Deus não existe. A existência de Deus é analisada filosoficamente e independemente da validade das religiões. Além disso, para concluirmos que Deus não existe, precisamos de provas NEGATIVAS da existência e não apenas descartar as provas a favor (lembre do exemplo Galileu citado nesse post). Uma parte da assertiva do neo-ateu já está no lixo.

Já diante da constação da existência de diversas opções, temos as seguintes alternativas:

  • Todas são verdadeiras (posição defendida por pessoas ligadas ao pós-modernismo, possivelmente);
  • Algumas são verdadeiras e outras são falsas;
  • Uma verdadeira e as outras são falsas (no todo ou em parte);
  • Nenhuma é verdadeira;

Para fazermos alguma conclusão, precisamos INVESTIGAR qual é a certa, não aceitar que (4) é verdadeira só por “haver divergência”. Se  fossemos estender esse critério “há discordância, então é tudo falso” para todo conhecimento humano, simplesmente teriamos que desistir de qualquer atividade intelecutal. Um framework de investigação poderia ser proposto para o caso das religiões (o professor Vinícius Pinheiro fez algo parecido com isso em seu blog (*)):

  • Para onde a evidência aponta? Para o politeísmo ou para a existência de um só Deus infinito?
  • Se é para o Deus único, quais devem ser seus atributos?
  • Dentro esses atributos, é coerente achar que ele deu uma revelação ou sinais?
  • Das opções de revelação, qual a mais coerente para ser aceita?
  • Etc.

E assim vai. Mas claramente de uma forma bem diferente da ilogicidade da conclusão “Se existem religiões diferentes, Deus não existe”.

Outra aplicação do debatedor neo-ateu pode ser a seguinte:

  • NEO-ATEU: Você acha que a Igreja do Espaguete Voador é falsa???
  • DEBATEDOR: Pela análise lógica dos atributos do Espaguete Voador, sim. E?
  • NEO-ATEU: Ora essa!!! Então como você pode achar que o Cristianismo é verdadeiro???

Na verdade, essa é apenas uma reedição da velha técnica da Ampliação Indevida (ou falácia do Morro Deslizante) descrita por Arthur Schopenhauer no seu livro de Dialética Erística:

Ampliação. Levar a afirmação do seu adversário para além do adversário para além de seus limites naturais, interpretá-la de modo mais geral possível, tomá-la no sentido mais amplo possível e exagerá-la. (…) O antídoto é a exposição precisa dos puncti (os pontos que se debatem ou status contraversiae, maneira de se apresentar a controvérsia.) (pág. 124)

Dentro dessa situação, seguimos o exemplo de Schopenhauer: explicamos os pontos que levam o Monstro do Espaguete Voador a ser descartado como opção (apresento algumas razões no link da primeira fala do diálogo). Não é porque consideramos uma interpretação (imbecil e declaradamente fictícia, nesse caso) acerca de Deus incoerente que, por extensão, todas as outras também deverão ser consideradas assim (não raro eles simplesmente trocam o nome “Deus” por “Curupira”, “Mamãe Ganso”, “URI” e acham que assim estão refutando alguma coisa).

Conclusão

Embora a dúvida até seja legítima, a mera existência de diferentes religiões, não é, por si, (a) evidência da inexistência de Deus nem (b) evidência de que todas elas são falsas. Quem conclui, diante da mera manifestação de opiniões diferentes, que a ausência de um consenso universal constitui prova definitiva de falsidade de todas essas manifestações, das duas, uma: ou precisa estudar mais lógica, ou simplesmente está querendo arranjar desculpas para justificar uma necessidade emocional.

(*) não me proponho a defender o que escreveu Vinícius, pois o objetivo desse blog é diferente. Estou apresentando apenas como exemplo de uma possível investigação.

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