Inerrância Bíblica e os assuntos da ciência – Ou ainda: o primeiro livro didático escolar?

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  • MENTALIDADE HEBRAICA E LINGUAGEM BÍBLICA

Vamos, pois estudar inícialmente um pouco da mentalidade dos judeus e do seu jeito de se exprimir.

No salmo 62, versículo 6, lemos: “Minha alma será saciada de gordura e de tutano, de meus lábios alegres ressoará o teu louvor”. Nós poderíamos dizer: O que é isso? A alma não come! É verdade. Mas, para o judeu, um bom almoço era aquele com muita carne gorda. Um bom almoço alegra. Por isso o salmista, em vez de dizer: “Minha alma estará feliz junto de Deus”, diz: “Junto de Deus minha alma será alimentada com carnes gordas e tutano”. Pode não parecer piedoso. Mas assim é que rezavam.

No salmo 118,109, encontramos: “Minha vida está sempre em minhas mãos”. Ter alguma coisa nas mãos, é estar pronto a entregar, a perder. “Ter a vida nas mãos” queria dizer: estou pronto a perder a minha vida, estou quase morrendo, estou em grande perigo.

Com a mão pegamos as coisas, tomamos posse. Em vez de dizer que alguém era rico, os judeus diziam: “ele tem a mão grande”. Quem era pobre ou avarento “tinha as mãos pequenas”.

Esses exemplos bastam para mostrar como os judeus usavam uma linguagem muito concreta, quase sem termos abstratos. Aliás, hoje ainda usamos linguagem semelhante. Se alguém nos diz que “está na fossa”, “foi para o brejo”, “foi para o buraco”, entendemos logo o que quer dizer e não perguntamos qual a fundura do buraco nem onde é o brejo.

Como os orientais em geral, os judeus gostavam de falar de um modo teatral. Assim, sem muitas explicações, a idéia se tornava clara, quase palpável. Usavam expressões que, analisadas friamente, são exageros. Um rei, para dizer que seu exército era numeroso, dizia que a poeira da Samaria não seria bastante para encher as mãos de seus soldados (1º Livro dos Reis 20,10). Em vez de dizer: “houve fome em muitos países”, diziam: “houve fome na terra inteira”. Há uma passagem do Evangelho (Lc 14,26) em que Jesus diz: “Quem não odiar pai, mãe… não pode ser meu discípulo”. Odiar, no caso, significa amar menos do que ao Cristo.

A língua hebraica não tinha os mesmos recursos das línguas modernas. Nós temos palavras que indicam claramente a comparação entre os termos. Nós dizemos claramente: “É maior o número dos chamados e menor o número dos escolhidos”. “Deus quer mais a misericórdia do que o sacrifício”. Os judeus diziam: “Muitos são os chamados e poucos os escolhidos” (Mt 22,14). “Quero a misericórdia e não o sacrifício” (Mt 9,13).

Usavam comparações e imaqens que não podem ser tomadas ao pé da letra. As idéias abstratas estavam ligadas a coisas materiais. Por exemplo:

  • Fraqueza: carne, cinza, poeira, flor que murcha, cera derretida.
  • Força: montanha, rochedo, bronze, tempestade, exército.
  • Glória: luz, brilho, relâmpago.
  • Fartura: leite, mel, água, azeite.

Esse modo concreto de pensar e de falar é que levava os judeus a falarem das coisas e de Deus usando expressões que realmente só de aplicam aos homens. Por exemplo:

  • As cisternas, os montes, as árvores devem bater palmas e gritar de alegria;
  • O sangue inocente pede vingança divina;
  • Deus tem rosto, nariz, ouvidos, boca, lábios, olhos, voz, braços, mãos e pés. Está revestido de um manto, senta-se num trono de rei. Tem desgosto, ódio, sentimentos de agrado, alegria, arrependimento. Tem até um nome próprio.

Na linguagem da Bíblia os números não têm a mesma importância nem o mesmo significado que têm para nós. Quando damos um número, procuramos ser matematicamente exatos; interessa-nos a quantidade real. Para os judeus os números tinham todo um significado simbólico, indicava o sentido dos acontecimentos ou as qualidades das pessoas. A idade dos patriarcas, cem ou mais anos, não era contada em razão dos anos realmente vividos, mas em razão da veneração que mereciam, do quanto eram queridos por Deus. No capítulo quinto do Gênesis encontramos uma série de dez gerações desde Adão até o patriarca Noé. Dez era apenas o número que indicava uma série completa e final. Falando de dez patriarcas, o hagiógrafo queria abarcar todos os acontecimentos, todas as gerações entre Adão e Noé, fossem lá quais e quantos fossem. Não estava, de modo algum, querendo ensinar que de fato tinha havido apenas uma série de dez gerações. De modo semelhante Jesus fala das “dez virgens”; S. Paulo menciona os “dez adversários” que nos tentam separar do Cristo (Rom 8,38s), e os “dez vícios” que nos podem excluir do Reino de Deus (1Cor 6,9s). Os meses do ano são doze. Por isso esse número também significava a perfeição, a totalidade.

Quando damos um número, estamos de fato excluindo qualquer quantidade maior ou menor, a não ser que digamos claramente o contrário. Os judeus indicavam o número que interessava no momento. Podemos dar alguns exemplos: Mc 11,2; Lc 19,30; Jo 12,14, dizem que Jesus entrou em Jerusalém montado em um jumento. Mt 21,2 fala, porém, de uma jumenta e de um jumentinho. Mc 10,46 diz que, ao sair de Jericó, Jesus curou um cego; Mt 20,30, diz que dois foram os cegos curados. Além do mais, precisamos ainda lembrar que muitas vezes houve engano dos copistas na transcrição dos números. Engano fácil de entender já que os números eram representados com letras do alfabeto, bastante parecidas entre si.

Bastam esses exemplos para percebermos o cuidado necessário para termos uma correta compreensão dos textos bíblicos.

  • GÊNEROS LITERÁRIOS

Há ainda um outro fator que devemos levar em conta: o gênero literário, isto é, o tipo de com posição que temos diante de nós. Isso vai determinar o sentido e o alcance que lhe podemos dar.

Se você ouve alguém contar uma história para crianças, uma dessas histórias em que os animais falam, aparecem fadas e bruxas, você não vai entender essa história do mesmo modo como entende as palavras de alguém que lhe está contando um fato real. Há muita diferença entre uma poesia, ou a letra de uma canção, e um trecho de um livro de ciências. Uma carta é bem diferente de uma reportagem ou uma notícia no jornal. Um discurso político não é a mesma coisa que um sermão. Aí estão exemplos de alguns “gêneros literários”.

A poesia, a anedota, a narrativa histórica, cada gênero literário afinal tem suas regras próprias de composição. Tem a sua linguagem própria, suas palavras apropriadas, seu estilo. Escrevemos ou falamos de um jeito quando queremos ensinar; de outro, quando queremos divertir, ou agradar, ou informar, ou amedrontar, e assim por diante.

E mais. Cada “gênero literário” olha para a realidade de um lado diferente. Alguns, querem apresentar um fato real, enquanto outros falam de fatos imaginários. Alguns podem aprofundar o assunto até aos mínimos detalhes, outros ficam só em generalidades. E podemos ainda notar que essas formas de expressao variam conforme o povo, o tempo e o lugar.

Também na Bíblia podemos encontrar muitos gêneros literários bem característicos. Há narrativas, históricas ou não, há poesia, parábola, alegoria, profecia. apocalipse. E temos que levar isso em conta ou, então, vamos interpretar mal o que foi escrito. O que lemos no Apocalipse ou nos Profetas não pode ser compreendido do mesmo modo como se estivéssemos lendo os Evangelhos. Vamos entender mal as Epístolas de S. Paulo se esquecermos que são cartas, escritas em circunstâncias bem concretas. Precisamos conhecer e levar em conta as regras próprias de cada gênero literário para não lermos o que não foi pensado nem escrito pelos autores da Bíblia.

  • A BÍBLIA E A HISTÓRIA

Lendo a Bíblia encontramos narrativas que nos levam a perguntar: – Isso aconteceu mesmo? Tanto mais que, muitas vezes, os dados fornecidos parecem não coincidir com o que atualmente conhecemos da História do antigo oriente.

No livro de Daniel, por exemplo, está escrito que o rei Baltasar da Babilônia era filho de Nabucodonosor. Ora, pelos documentos babilônicos, conservados em tabuinhas de argila, sabemos que Baltasar era de fato filho de Nabonide, quarto sucessor de Nabucodonosor. E o livro de Jonas, será que quer apresentar um fato histórico, ou seria apenas uma narrativa com finalidade edificante? A mesma pergunta podemos levantar quanto aos livros de Jó, de Judite, de Tobias e outros.

Não vem ao caso um exame detalhado de todos os problemas que se apresentam. Vamos ver apenas alguns princípios que nos aludem a compreender o modelo literário de História usado em algumas partes da Escritura.

Em primeiro lugar é preciso saber que a Bíblia se interessa pela História na medida em que os acontecimentos têm uma importância religiosa. O que interessa ao hagiógrafo é apresentar o que Deus fez pela salvação dos homens e qual a resposta que os indivíduos, o povo e a humanidade deram à proposta divina. São mencionados, por isso, apenas os fatos realmente significativos sob esse aspecto. E mesmo esses fatos são narrados de forma a dar relevo ao seu significado religioso. Dados de menor importância são omitidos ou apresentados de um modo aproximativo, sem que se procure a exatidâo que estamos acostumados a encontrar na História cientificamente escrita.

Não podemos, porém, esquecer que a Bíblia se apresenta como o relato do que Deus realmente fez para a nossa salvação. Não quer apresentar lendas e mitos. Afirma fatos: e a fé cristã é possível somente se aceitamos a realidade desses fatos fundamentais.

Por outro lado, é bom lembrar que as descobertas arqueológicas dos últimos tempos vêm confirmando dados até agora conhecidos apenas através das informações bíblicas. O que nos dá, mesmo do ponto de vista da ciência histórica, uma garantia bastante grande pelo menos quando a exatidão dos fatos centrais.

Finalmente, há na Bíblia muitas narrativas que não precisam nem podem ser tomadas como apresentação de fatos realmente acontecidos. São “histórias” contadas com a finalidade de ensinar, exortar, animar.

Concluindo: A Bíblia não erra nem pode errar quando o hagiógrafo quer de fato apresentar o que realmente aconteceu. Nem tão pouco pode errar ao nos dar o sentido, a significação religiosa dos fatos.

  • A BÍBLIA E A CIÊNCIA

A nossa visão atual do mundo, dos seres vivos e da humanidade é muito diferente da que encontramos na Bíblia. Essa nossa visão é formada por conhecimentos certos, adquiridos através das descobertas científicas, ou se baseia em hipóteses, tentativas de explicação coerente para os fenómenos que ainda não chegamos a compreender perfeitamente. Na Bíblia, encontramos uma concepção do mundo bastante poética e ao mesmo tempo simplista. A terra era considerada como uma grande planície, cercada de altas montanhas (onde moravam o sol e a lua). Sobre essas montanhas, como se fossem imensos pilares, estaria apoiado o céu, imaginado como imensa cúpula de cristal onde estariam incrustadas as estrelas. A terra estaria flutuando sobre o mar imenso, sob o qual estava a habitação dos mortos. Acima dos céus, havia o grande mar superior, e mais alto ainda o céu, habitação de Deus. A origem do mundo e da humanidade era imaginada como acontecimento bem recente. A uma palavra de Deus a criação teria surgido como um todo perfeito e definitivo. Os fenômenos naturais (ventos, raios, chuvas) eram atribuidos a uma intervenção direta de Deus. As doenças, eram causadas por forças misteriosas. Baste isso para nos fazer compreender a dificuldade de alguns em conciliar as afirmações da Bíblia com os dados científicos agora conhecidos.

Houve tempo em que se tomaram atitudes extremas. Alguns, partindo dos conhecimentos atuais, viam a Bíblia cheia de erros e tentavam explicar tudo, até os milagres, de um modo natural. Outros tentavam colocar a Bíblia como critério para o nosso conhecimento científico da natureza; ou, então, queriam a todo o custo fazer uma acomodação entre suas afirmações e as da ciéncia. Tentativas que não serviam nem à verdade da Biblia nem à verdade da ciência.

Para evitar mal-entendidos podemos seguir estes princípios:

  1. A Escritura não quer ensinar “ciência”. Quer apresentar-nos Deus, suas obras e seus planos para a nossa salvação. Como dizia um escritor antigo: “A Escritura ensina-nos como ir ao céu e não como vai indo o céu”. É claro, porém, que falando sobre Deus e suas obras, a Bíblia faz afirmaçôes que têm conseqüências para a ciência. Por exemplo, quando afirma que tudo quanto existe não surgiu por si mesmo mas foi criado por livre decisão de Deus.
  2. A Bíblia, quando fala dos fenômenos e realidades da natureza, fala ao modo do povo, fala segundo as aparências: o sol que nasce e se põe etc. E muitas vezes os hagiógrafos usam uma linguagem poética que personifica as forças da natureza.

  • A BÍBLIA E A MORAL

Quem lê o Antigo Testamento poderia ficar chocado com certos costumes, mais ou menos tolerados, ou com certos episódios mais ou menos escabrosos. Como é possível isso num livro escrito sob a inspiração divina?

A Bíblia fala sobre o homem. Fala, pois, do que há de bom e mau, mesmo em homens que deviam desempenhar um importante papel nos planos de Deus. Não simplesmente para falar do mal, nem muito menos para o ensinar. Quer mostrar até que ponto pode chegar a fraqueza humana, quer ensinar-nos a evitar todo pecado. Justamente essa presença do mal nos mostra como Deus foi pacientemente educando a humanidade para que pudesse afinal aceitar e viver o Evangelho de Cristo. Não impunha exigências maiores do que as assimiláveis por homens ainda presos a uma situação precária. Não estava interessado apenas em fazer cumprir um código moral; queria levar as pessoas a um crescimento interior. Sabia esperar o momento de mandar o seu Cristo que, diante das tolerâncias da lei antiga, iria anunciar: “…eu, porém, vos digo…!”

Neste ponto podemos concluir:

A Biblia não erra nem pode errar em nenhuma das afirmações que Deus e o hagiágrafo quiseram de fato fazer e no sentido em que a fizeram.

Autor: Flávio Cavalca de Castro
Fonte: Livro “Para Ler a Bíblia”, ed. Santuário, pp. 59-67

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